O Trator e a Ecologia

Muitas idéias do Movimento Verde parecem se encaixar com a Consciência de Krishna. Esses movimentos apóiam a não-violência, a democracia, a responsabilidade social, e a ecologia. Eles também enfatizam a descentralização, ou seja, delimitam a política e a economia. Finalmente, eles buscam, na orientação espiritual, harmonizar a civilização humana e a Terra.
Em A Alternativa Verde: Criando um Futuro Ecológico, Brian Tokar descreve “o problema no modo como nos alimentamos” como “argumentavelmente o componente mais vital na estratégia do movimento ecológico”. Em uma seção denominada “Agricultura verde – um lugar para começar”, eu encontrei isso:
“Uma enorme porção de nossa comida é atualmente produzida por enormes ‘fazendas’ industriais fortemente mecanizadas sob o controle de um punhado de gigantescas indústrias agrícolas. A sua produção é barata, tanto para o cultivo como para a compra, mas é progressivamente deficiente em nutrientes básicos. São transportados frequentemente milhares de quilômetros até os consumidores, tanto urbanos quanto rurais. Enquanto isto, o aumento do uso de fertilizantes químicos, herbicidas e inseticidas sacrifica a fertilidade básica de nossos solos e espalha veneno em nossas terras e na cadeia alimentar”.
Mas eu fiquei surpreso ao constar que Tokar, em sua crítica à agricultura centralizada, não se manifestou a respeito da ferramenta básica de destruição: o trator movido a petróleo.
O papel do trator na sociedade moderna foi prenunciado na Idade Média, quando os fazendeiros começaram a substituir o boi de tração por cavalos de batalha europeus. O cavalo permitiu aos fazendeiros trabalharem maiores pedaços de terra. Fazendas maiores, pertencentes a uma minoria, fizeram mais dinheiro e cultivaram o alimento mais barato. Camponeses deslocados forneceram mão-de-obra barata para as fábricas. Mão-de-obra barata alimentada com comida barata marcou o período da revolução industrial. E o trator impulsionou as coisas muito mais longe.
Srila Prabhupada nos contou que o trator ajudou a romper o sistema indiano de aldeias. Similarmente, o inventor agrícola Jean Nolle alerta os aldeões dos países de terceiro mundo que a maioria deles perderá sua terra para as indústrias agrícolas se eles permitirem que suas comunidades sejam fisgadas pelo trator.
O trator, a meu ver, serviria como um símbolo de quase tudo que os movimentos ecológicos são contra. Eu pensei se Brian Tokar pudesse conversar com meus amigos da Carolina do Norte, Balabhadra dasa e sua esposa, Chaya-devi dasi. (Eles são agricultores conscientes de Krishna de fazendas movidas por bois.) Ele aprenderia muito sobre o que o trator faz para arruinar o meio ambiente e estragar a vida humana. Então, Brian Tokar, por favor, conheça Balabhadra e Chaya e permita-os proporcionar a você algum discernimento sobre o papel do trator moderno.

O trator movido à gasolina: uma ferramenta de destruição

Por Balabhadra dasa and Chaya-devi dasi
Em nossas viagens nós conhecemos muitas pessoas ecologicamente conscientes que aparentemente aceitam o trator motorizado na agricultura. Então, a primeira pergunta que fazemos a essas pessoas é: quantas escavações vocês precisam para construir um trator? Vocês precisam de minas para extração de ferro, carvão, pedra calcária, manganês, níquel, cobre, bauxita, estanho, zinco, apenas para mencionar alguns. Para obter esses minerais, você tem que rasgar sua mãe, a Terra, e criar condições infernais para milhares de trabalhadores. E esse é apenas o primeiro passo.
Depois, vêm as instalações de fundição, onde os minérios são partidos e derretidos. Estamos falando agora das grandes indústrias – enormes fábricas, mais trabalho infernal. E produzimos poluição em larga escala.
Das instalações de fundição nós vamos para a fábrica onde as partes do trator são prensadas. Depois, outra fábrica, onde o trator é montado. Ainda mais condições infernais de trabalho, ainda mais poluição.
Agora, finalmente o trator está montado e parado no estacionamento – sem pneus. Onde conseguimos o material para os pneus? As pessoas costumavam ir aos países tropicais e pagavam aos trabalhadores umas poucas moedas para cortarem seringueiras e realizarem a sangria para extrair o látex. Atualmente, nós temos tratores de esteiras de aço dos feitos de materiais sintéticos derivados do petróleo.
Falando em petróleo, agora que temos nosso trator com seus pneus parado no estacionamento, o que o move? Você não pode colocar capim ou aveia naquele tanque. Você precisa de petróleo, pelo qual você provavelmente tem que brigar. Para provar que ele é seu, você talvez precise enviar tropas militares para o Oriente Médio para matar homens, mulheres e crianças. Você talvez tenha que sacrificar seu filho ou mesmo sua filha. E se você ganhar, quando o homem com o Exxon Valdez vier para transportar seu óleo pelo oceano, pode ser que ele derrame a metade no mar.
O óleo que sobrou vai para refinaria. Se você já dirigiu por uma refinaria urbana, você sabe que o ar cheira como um gambá, e a água é tão ruim que mesmo um gambá pensaria duas vezes antes de bebê-la.
Mas agora, nosso fazendeiro tem o seu trator, sua esteira para locomoção, e sua gasolina. Ele liga o motor e pensa: “Com esse motor posso fazer o trabalho de cinqüenta bois”. Ele olha para os seus bois e diz: “Eu não preciso mais de vocês. Eu tenho o meu trator. Eu tenho a minha gasolina. Vocês podem ir para o matadouro”. Quando você começa a matar bois, você está adquirindo karma pesado. Algumas reações kármicas começam imediatamente. Para começar, você tem pessoas miseráveis trabalhando no matadouro, em trabalhos que o Governo dos Estados Unidos diz ser mais perigosos e desmoralizantes do que aqueles na fábrica e na mina.
Mas o Sr. Indústria Agrícola não pensa nisto. Ele pensa, “eu não tenho mais que alimentar aqueles bois. Que o lucro vá para o meu bolso”. Pelo preço de suas vidas.
Então ele olha para os seus carroceiros, que costumavam trabalhar com aqueles bois — pessoas que trabalhavam no modo da bondade no campo, cultivando grãos e vegetais. Ele diz: “Eu já matei os meus bois. Eu tenho o meu trator – não tenho trabalho para vocês, rapazes. Por que vocês não vão trabalhar na fábrica e construir mais máquinas. Ou vão viver do auxílio do governo”.
Depois, ele puxa seu trator para arar seu campo. Seus pneus pesados amassam a terra, consequentemente as raízes de suas plantas híbridas têm problemas de crescimento. Ele não mais tem adubo para nutrir o solo, por isso despeja fertilizante comercial nele, feito com grande injeção de gás natural. Posto que, eventualmente, a colheita consome os componentes orgânicos do solo que mantêm a umidade, seu solo é facilmente levado para o rio. O solo debilitado que restou gera plantas frágeis – presas fáceis para as ervas daninhas, insetos e doenças. Então, o fazendeiro tira todo o seu arsenal de pesticidas e herbicidas. Estes também vão rio abaixo.
Bem, esse é o trator moderno. Será que ele se encaixa nos valores que os movimentos ecológicos querem promover? De modo algum. Em vez disso, o trator avança a todo custo pelo meio ambiente, espalha a centralização e a exploração, e atropela a vida espiritual.

A alternativa: o trator de Krishna

Qual é a alternativa? Quando a vaca dá à luz, na metade das vezes a cria é boi. Esses bois são os tratores de Krishna, produzidos na “fábrica” do útero materno. Essa fábrica não polui ou provoca condições infernais de trabalho. E opera pelas leis da natureza, as quais Krishna organizou.
O trator de Krishna pode cultivar o seu próprio combustível – aveia e grama. E com esse trator, mesmo os resíduos são aproveitáveis. O estrume da vaca pode ser processado para produzir metano, um combustível que não gera substâncias nocivas. O resíduo pode ir para o solo como um fertilizante de primeira classe e um aditivo para o mesmo. Sem necessidade de subprodutos dos matadouros para construir material orgânico.
E sobre as condições de trabalho? A relação entre o fazendeiro e o gado é baseada no amor e na confiança. Quando os bois vêem o fazendeiro, eles esperam ser acariciados e afagados embaixo do pescoço. Quando retornam, eles gostam de trabalhar, e trabalham bem com um fazendeiro experiente. É o tipo mais de mão-de-obra mais gratificante que alguém pode querer.
Quando usamos o trator de Krishna não existe poluição. E nem violência. O fazendeiro trabalha lado a lado com o boi para produzir as melhores comidas naturais. Este tipo de trabalho – inspirado na Consciência de Krishna – proporciona a base correta para qualquer grupo que queira um mundo mais verde.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *